5.31.2007



Poderão as nuvens ter aberto
E os pássaros esvoaçado
Poderá o sol banhar-me a cara
E o seu reflexo no mar sorrir
Mas a alma, essa,
Submersa na penumbra,
Permanece nostálgica,
Nas dunas onde o amor
Dançou.

“Não voltes aos lugares onde foste feliz”…dizem
Mas para onde quer que volte os olhos
Há um jardim onde a alma brincou ao sol.

noiva da dor

Entrei na sala escura do convento e acedi por uma porta larga à capela, onde a freira, curvada sobre os joelhos, venerava, em dolorosa solidão, a grande estátua do redentor, pendurado na cruz, para toda a eternidade.
Balançava o corpo de uma forma dormente, na feição semelhante em que os islâmicos foram ensinados a ler o Alcorão. Erguia o olhar estreito, para avistar brevemente a cara padecente da estátua pendurada, e tornava a mirar o chão, com a devoção extrema que o seu hábito impele. O enorme silêncio na austera divisão era audível, e ecoava pelas paredes nuas e frias daquele local onde o ritmo bucólico da fé é entoado na escuridão.

Aproximei-me da estátua crucificada para admirar a perícia do artesanato presente naquele corpo moribundo de madeira e no sangue tão ardilosamente ficcionado. Para contemplar aquele ilusionismo de rosto sofrido envolto na penumbra, que tantos séculos de louvor patrocinou e tantas almas perdidas asilou. A freira ouviu os meus passos e virou os olhos incautos de assombro na minha direcção, talvez espantada de ver uma alma viva naquele eremitério isolado, para além das penadas que por lá andariam.

Que culto é este que martiriza o seu deus?
Saí caminhando, em direcção à luz irrefutável do dia. Quem nunca entrou, nunca lá esteve. Quem entrou, nunca de lá sairá.
Não quero questionar o adágio de ninguém. Nem tirar a bengala a quem dela precisa para caminhar, mesmo tendo duas pernas sãs.
Cada um tem a sua cruz, é certo. Enaltecer a dos outros, não será a minha.

5.30.2007


Não sei quem sou
Só sei que estou,

Não sei se estou
Mas sei que fico,

Sei que olho e devoro,
Cada traço do teu rosto,

Como se isso
Me dissesse

Quem eu sou.

5.29.2007

A variedade é a fonte de todos os nossos prazeres.
Os prazeres deixam de o ser quando o hábito se impõe sobre a escolha.

5.28.2007

São todos transparentes,
Sobretudo aqueles que não o querem ser.

Deito-me sobre mim próprio
e contemplo a minha inutilidade

o Mundo é perfeito


5.25.2007

Contra Felicem vix deus vires habet

uma rosa


Pudera eu ser essa rosa que nasce no teu peito
E na tua boca sequiosa morre
E o vermelho do desejo incendiar a razão
De na carne florir

Não importa se me colheste no jardim do éden,
Para morrer nesse peito
E nele repousar as minhas pétalas saciadas.

Os espinhos que a tua mão abraça
São chagas de um desejo por colher,
Quis a luxúria que neles derramasses
O teu suor para a chaga desvanecer.

Bebe o pólen que verto sobre o teu rosto,
Ele é a semente do desejo que a boca germina.

Colhe o meu ardor erecto no teu leito,
Qual rosa perfumada no auge da primavera,
E nele afaga a jeito
A tua rosa avermelhada....

Cardeal na Calvície



Vestes-te de vermelho
E proferes-te distante da carne,

Envergas a cruz de ouro
Quando dizes professar a palavra de Cristo,

Quem és tu cardeal na calvície,
Para mostrar o Caminho?

A tua barriga envergonharia dez crianças famintas!
Vives sob as abóbadas do lustro
E nunca conheceste o caminho que negas aos outros.
Só quem a Perdição calcorreou, poderá aos gentios sugerir,
Que esse é o caminho da Salvação.

Ouvir-te-ão quando o percorreres.
Serás padre quando a palavra e a maçã cederes,
Nas mãos do incrédulo.

Agora vai,
Vai e erra!
Por amor a Deus.

A Tentação esteja contigo!

Os Homens fazem-se de Chagas.
Os Santos de Maldição.