Entrei na sala escura do convento e acedi por uma porta larga à capela, onde a freira, curvada sobre os joelhos, venerava, em dolorosa solidão, a grande estátua do redentor, pendurado na cruz, para toda a eternidade.

Balançava o corpo de uma forma dormente, na feição semelhante em que os islâmicos foram ensinados a ler o Alcorão. Erguia o olhar estreito, para avistar brevemente a cara padecente da estátua pendurada, e tornava a mirar o chão, com a devoção extrema que o seu hábito impele. O enorme silêncio na austera divisão era audível, e ecoava pelas paredes nuas e frias daquele local onde o ritmo bucólico da fé é entoado na escuridão.
Aproximei-me da estátua crucificada para admirar a perícia do artesanato presente naquele corpo moribundo de madeira e no sangue tão ardilosamente ficcionado. Para contemplar aquele ilusionismo de rosto sofrido envolto na penumbra, que tantos séculos de louvor patrocinou e tantas almas perdidas asilou. A freira ouviu os meus passos e virou os olhos incautos de assombro na minha direcção, talvez espantada de ver uma alma viva naquele eremitério isolado, para além das penadas que por lá andariam.
Que culto é este que martiriza o seu deus?
Saí caminhando, em direcção à luz irrefutável do dia. Quem nunca entrou, nunca lá esteve. Quem entrou, nunca de lá sairá.
Não quero questionar o adágio de ninguém. Nem tirar a bengala a quem dela precisa para caminhar, mesmo tendo duas pernas sãs.
Cada um tem a sua cruz, é certo. Enaltecer a dos outros, não será a minha.
Aproximei-me da estátua crucificada para admirar a perícia do artesanato presente naquele corpo moribundo de madeira e no sangue tão ardilosamente ficcionado. Para contemplar aquele ilusionismo de rosto sofrido envolto na penumbra, que tantos séculos de louvor patrocinou e tantas almas perdidas asilou. A freira ouviu os meus passos e virou os olhos incautos de assombro na minha direcção, talvez espantada de ver uma alma viva naquele eremitério isolado, para além das penadas que por lá andariam.
Que culto é este que martiriza o seu deus?
Saí caminhando, em direcção à luz irrefutável do dia. Quem nunca entrou, nunca lá esteve. Quem entrou, nunca de lá sairá.
Não quero questionar o adágio de ninguém. Nem tirar a bengala a quem dela precisa para caminhar, mesmo tendo duas pernas sãs.
Cada um tem a sua cruz, é certo. Enaltecer a dos outros, não será a minha.