8.31.2007

Pomba Branca

E a vida continuava,
Naquela praça ferida pelo tempo
Pombas acercadas junto a uma velhota
Bengala na mão e um saco de papel na outra,
Curvada pela idade.

Restinhos de pão duro, do almoço dos dias anteriores
Xaile cinzento-claro cobria-lhe a cabeça
Esforçou-se por multiplicar milagrosamente
Os bocados em bocadinhos menores,
Para que a nenhuma ave faltasse o ânimo de voar.

E como que tirada de um quadro,
Foi sobrevoada por uma névoa de asas,
Na qual se perdeu e foi achada.
Sorrindo na graça de ser agraciada
Pela coreografia que desenhava.

Quem melhor olhou
Viu, que aquela velhota entre elas voava
E nas costas curvadas,
Escondia umas asas mais brancas
Que a pedra branca da calçada.


Foi aí, que sem o saber
Chegou a velha do xaile ao meu ouvido
E cândida sussurrou:
“ – Não me poderás agarrar,
Sou livre como o amor”.

E parece que a vi afastar-se, prazenteiramente,
Deixando para trás pombas extasiadas
Multidões esquecidas da fome.

Abriu as asas num estrondo e fugiu,
Para longe do olhar.

Os seus cabelos eram mais claros
Que as penas brancas da pomba a voar.