O Adamastor, o espantalho, o rapaz. O guerreiro, a planície, os pardais, as gaivotas e os vendavais, entre outros arquétipos ancestrais. O sangue que escorre dos punhos ou a paz que se leva aos outros. A liberdade, essa, não sei se a atingi nem ninguém. Mais um ideal dos homens para conversarem à luz da fogueira. Apenas mais um dos que comem na mesa do sagrado e do profano.AM
9.26.2007
9.22.2007
Na praia que brinca o Menino
Não é redoma de cristal o mundo
Não poderás ensinar o teu filho
Recordá-lo-ás apenas
Que correste o mesmo caminho
E quando ele ao fim chegar
Lembrará o seu filho
Que gritaste que se ia magoar
No conforto do teu lar.
Porque me abandonais, Pai?
Para que te magoes no meu caminho
Avista o cristal no brilho
A areia a levantar
9.21.2007
Assim falava Adamastor
Que venham corcéis de relâmpagos fulminantes
Tufões de discórdia inimiga
Maremotos de angústia exasperante
Que o mar gigante engula a terra em fúria
E contra as rochas rasgue a carne ensanguentada
Dos homens levados pela tormenta abismal
Que chuva imunda inunde os vales indefesos
E cidades inteiras arrastadas na torrente asquerosa
Para o fundo negro dos oceanos perniciosos sejam
Que os gentios se matem e vilipendiem
Pelos últimos restos de defuntos putrefactos nos caminhos
Que se digladiem desesperados com os abutres e as hienas
Que jamais o sol nasça ao espírito dos gentios
Virão as sombras negras esbracejando no ar rarefeito
Que anjo algum de espada luzidia escorraçará
Mil olhos vermelhos atrozes de perdição infernal
E ouviremos as crianças aterrorizadas no deserto
Pelos gritos lancinantes das mães esventradas
Que venha a guerra entre as formigas tontas
Que neste seixo rolante no espaço, Deus se julgam
Que incorrida venha a pena do homem maldito
Que caia a bomba ecológica e desinfecte a crosta dos germes
Expiará seus pecados purgando orgulhoso pecado alheio
E assim se fará o humano até que terra apenas seja, nada.
Logrou comer as baratas que vaidoso pisou em glória
Será carne defunta a secar ao Sol!
Pobre do Homem, que não quiz ouvir o Adamastor
9.20.2007
canta a terra
Com as quais podes lavrar a terra
E retirar do labor o alimento
Aquele que o sol banhou chilreante
Sob cujo jugo acordaste na neblina matinal
Se cavares bem o coração dos homens
Frutuosa será a colheita
Na qual a fome se saciará.
Olha o homem que cava a terra
Que Engraçado que ele é na dança!
Sente os calos da desgraça
Aperta-lhe a mão firme como enxada
Foi o sol que o meteu Em graça
No nascimento da manhã que encanta.
Vela no Escuro
Onde um homem te guiará
À luz de vela fraca mas persistente
Verás nela a confiança
De que a boa barca o túnel te levará
É um homem que soube conhecer o sorriso
E por isso seus rebentos são criança
Que brincam no colo
Da sua gruta de esperança
Leva uma vela no escuro
Que nenhum homem mais apagará
.
9.19.2007
A música é para ser tocada e não admirada
Para vibrar em sintonia
Terá de encontrar na Sinfonia
Diz à estátua que está morta
E que valores altos se levantam!
E quando os outros lerem-te a cantar
Lembra-te que foste corda comovente
No alaúde de um poeta grande.
Basta-te!
Maria
Mas ela queria a tua alma
Entregaste-te à perdição
E a tua alma quase a leva
Convulsionada em pranto mor
Na qual os teus pés se banham
Veio pedir-te,
A alma dela
trigo ao vento
Da cor do sol e do mel
Que me suprime o pensamento
E dores no corpo de fel
Eu estou lá onde?
Nem sei onde estou
Nem sei o que piso
Nem sei se quero estar
Neste porto de abrigo
Quero deixar de ser
Deixar de poder ver
Ser trigo apenas
Na terra plantado
Para que o pão de mim
Seja enfim prostrado
9.18.2007
um dos mestres
Quando nas entrelinhas escrito
Coisas que falamos à distância
Por intermédio dos que conhecemos
Dores no corpo
Um espírito grande suporta
Poucos são os corpos que o aguentariam
Sofriam mais os que a Cristo livrado
Viam A cruz arrastar
Que o próprio dela salvado.
Se te fores, não te irás
Será pesar maior no meu coração
Mas eu sei bem o quanto devo às estrelas
Ter tido a honra de ser teu amigo
E não culparei a ceifeira
Coitada, também cumpre o seu destino
Assim se resume uma vida em tão singelas palavras
Pois muitos os teus dons são
Tão plena e cheia como nunca viu outra igual
Que no tempo soube parar
E dar graças a quem dela se acercou
Para neles transbordar as línguas de fogo
Que te consumavam
Mais não são precisas
Foi tudo escrito na pedra antiga
Na história daqueles que são palavra
Caminharemos juntos no Cosmos
Onde te sentarás no Olimpo que és
Colunas viçosas, gigantes, brancas !
Por debaixo do maior dos telhados desta terra.
9.17.2007
Pessegueiro
Que vive do ar
E nele espraia os seus frutos
De ramos cheios de brilho
A árvore fala na sua irrelevância
Embora só e com os pés no pó
Irradia palavras vividas de esperança
Se quiseres morar na abundância
Ela pertence aos campos verdejantes
Onde todas se juntam numa só
Vibra a floresta ao luar
Nasceu da semente encarcerada na terra
A casa que a razão desabita
Olha o fruto que colhes
Filho da Tragicomédia
Que inicias
9.14.2007
Paisagem
Como candeias de cristal
E sobrevoarão na planície estendida
Retrato perfeito de um pintor maior
Da qual tu és traço fundamental
No sufoco da gaiola
O meu beijo não te quis
Planarás sobre a razão dos incrédulos
Asas abertas abraçando a Tela
9.13.2007
Educação
9.12.2007
Poeta
Habita as muralhas do indizível
Em montanha que não vislumbras
E se ousares escalar tais paredes
Cuidado com o chão que escreves
Ele comeu o sangue dos heróis
Cuja glória se desvaneceu
No campo de batalha
Sob o uivar da lua
.
9.10.2007
Gárgola Pensadora

Oh, triste gárgola, em que pensas tu?
Olhas-nos do alto dessa torre
Perdida no labirinto da dúvida
Só a fealdade encontrarás
Tu não nasceste para pensar
Larga a semente do mal
Anda brincar connosco
Na floresta divina
Vem dár-nos as mãos
À volta da fogueira
- Onde fica a tua casa Adamastor? – Perguntou o rapaz incauto.
- Se me quiseres visitar, apanha um barco e veleja para longe desta costa em direcção incerta. Quando te despedires do norte, afoga-te nas profundezas. Eu vivo no mundo submerso pela penumbra. Olho-te através da sombra. Não me sentes atrás do teu ombro? – Interrogou condescendente.
- Mas já cheguei ao Cabo da Boa Esperança, Adamastor?
- Tu riste-te da dor e descuras a felicidade, o teu barco despedaçou-se há muito nas rochas temerosas – acenou em aceno largo. Vago, como é vago o voo das gaivotas.
Uma brisa levou o gigante, deixando apenas o reflexo do sol nas águas estagnadas.
Era o céu que era reflectido no mar ou era o mar que falava deste mundo.
9.04.2007
bushi
Apenas vivias para dar abaixo
O que de cima te ensinaram
E se para ti tirasses proveito,
O gélido sabor da tua lâmina
Conheceria as vísceras sagradas
A casa onde habitava a vontade
Pertencias à casta mais baixa
A que vivia para nos servir
O meu pescoço é teu
Inclino-me perante o último,
O primeiro a ser servido
9.03.2007
Arco-Íris
Mas ele avisou-me – pensou o rapaz, recordando-se do Adamastor.
Ele deu-lhe a escolher. E ele escolheu a dor. Percorre apenas o caminho que para ele trilhou.
Eu quero esta dor! – Pensou o rapaz lembrando-se das ondas gingantes – Que venham! Com toda a sua plenitude!
Que eu serei o maior palhaço a representar no teatro desta vida
Chorarei as lágrimas mais sofridas que o mar já viu
E largarei as gargalhadas mais irisadas que o céu pintou.
Porque ele escolheu a dor