9.10.2007

- Caminha direito, por essa praia deserta. Olhos fixos ao longe, no horizonte. Nada te pode obstruir. Tu não estás aqui. Tu não és daqui – explicou o Gigante – Já não precisas de mim, vou para a minha casa descansar, para além da dor – falou a brisa remexendo a superfície da água.

- Onde fica a tua casa Adamastor? – Perguntou o rapaz incauto.

- Se me quiseres visitar, apanha um barco e veleja para longe desta costa em direcção incerta. Quando te despedires do norte, afoga-te nas profundezas. Eu vivo no mundo submerso pela penumbra. Olho-te através da sombra. Não me sentes atrás do teu ombro? – Interrogou condescendente.

- Mas já cheguei ao Cabo da Boa Esperança, Adamastor?

- Tu riste-te da dor e descuras a felicidade, o teu barco despedaçou-se há muito nas rochas temerosas – acenou em aceno largo. Vago, como é vago o voo das gaivotas.

Uma brisa levou o gigante, deixando apenas o reflexo do sol nas águas estagnadas.

Era o céu que era reflectido no mar ou era o mar que falava deste mundo.