10.30.2007

Fina a linha que une céu e mar
Longe está ela do teu olhar
Fina a linha que te separa
O mar de desejo navegado
Da longínqua ilha que amparas
Fina a linha que te submete
À mais odiosa dualidade
Que para este mar te atira
Sem qualquer dó nem piedade

Fina a linhagem que te caminha
É miragem a ilha que avistas
Ou vislumbras a verdade?
Lançaste a caravela ao vento
Para desta terra te apartares
Ó homem ingrato! Não te basta!
Fizeste do teu berço uma barca
Tu mereces a dor da saudade
Fina ironia a da tua casta
sonhar acordado,
voar amarrado

crer ver para além
de ver sem querer

sonhos amarrados
a voar acordados

éter escondido,
vontade de ser

Insónia

Em cama vazia, se deita um ser, ao abrigo da noite clara de insónia.
Um homem só, com a sua mente, procura encher-se daquilo que não tem. Tenciona preencher em tensão um vazio de significados. Devia-lhe bastar os sentidos. Degustá-los irreflectido, para que a sua solidão fizesse sentido. Para que a saboreasse na companhia do Sentido não intencionado. Mais difícil do que distrair-se é abstrair-se da distracção. De si poderá tentar fugir, mas para além de si nada mais intentará. Precisará de consolo se não se consolar em dar-se aos sentidos. Se quiser agarrar o significado, este não o abraçará.

10.25.2007

- Tenho pena se te fores – balbuciou o rapaz ao gigante.

- É um prazer para mim partir. Será um prazer quando esse dia chegar, agradecer o que me ensinaram – Falou erguido sobre o mar – na verdade já parti…. – Disse, ofuscando o céu de negro.

- Porque te mostraste, Adamastor?

- Para que não me temesses. Atiraste-te às vagas, como quem ama a tormenta. Foste digno de perecer onde os dois mares se cruzam.

- E o que ganhei? – perguntou o rapaz.

- Nada ganhaste. O que nos é dado, a qualquer momento é retirado. Ganhaste nada.

10.23.2007

A Ceifeira

Ousaste esquecer-te da sombra
Na viela recôndita que espia
Escorreita entre o bosque sombrio
O teu passo apressado presencia

Hás-de querer virar-lhe as costas
Na esperança que não cheire o medo
Dentes raivosos que rangem
Da tua carne ressoando tão cedo

És equilibrista em corda bamba
Estirada pela mão da morte
Para a qual ziguezagueias na esperança
Dos efémeros aplausos da sorte

Dormes sobre o seu velório
A ceifeira que aconchega o leito
Na qual inclinas para dormir
A rosa seca que murchou teu peito

E em cada manhã que encanta
Rogas pragas à tua sorte
Ao pescoço que se esquivou da foice
Ao fantasma que enganou a morte

Ruínas

Escava o homem a terra
Na senda de arquétipo submerso
Potes, ossos, pedras
Em busca do homem perdido
Fósseis, flechas, guerras

Em busca do homem perdido
O único animal que se estranha
Esgaravata arqueólogo a terra
Achados, perdidos, encontrados
Revira o homem sua entranha
Olhais para o mar revoltado
o palhaço que pesca aflito
que pesca ele perdido
na imensidão daquele conflito?

Aí vem a tempestade negra
caótica sobre o céu o mar acerca
pássaros e seres afugentados
paisagem sombria de vida deserta
salvaram-se nas tocas remediados
e sobre as dunas silva o vento apenas
vontade pura da violenta desventura
que ninguém quer encarar
e só há um que se lança ao mar
para as vagas defrontar
o que se ama perdido da tormenta
na inconstância daquele mar

10.17.2007

O Andrajoso

E assim se cruzam no deserto
Peregrinos que apaziguam o caminho
E ao se cruzarem peregrinos
No deserto encontram seu destino

Julgaste que ao vento falavas
Quando a tua voz sobre as dunas ecoou
Mas sob as dunas dormia um peregrino
Que a voz mais deserta ele sonhou

Julgavas que falavas sozinho
Mas a tua palavra não coube no corpo
Ela é luz que trespassa em voo
O olhar do caminhante que avistou o corvo

Tu falavas da imensidão incansável
Estendida para alem das dunas
Que os pés doridos sabiam alcançável
Mar onde almas caminhantes vivem unas

Caminhaste deserto, peregrino andante
Sem saberes que pés te moviam
Na direcção do horizonte distante
Para onde peregrinos te seguiam

10.11.2007

Esquece

Esquece que as palavras são nada
E que não há discussão possível
Que pronuncie o âmago

Esquece que as palavras são fúteis
Quando atiradas à cautela da mente

Esquece-te nelas
Mergulha apenas nas palavras
Que gorjeiam das entranhas

E esquece as palavras ditas
Pelos homens esquecidos da Palavra
À mercê do vento dormente

Esquece-te

10.10.2007

Beijas,
Como se quisesses respirar a vontade que transpira
E na vontade confiasses o anseio de respirar
De tocar

Tocas,
Como se quisesses esculpir a carne
Tributo erecto a um beijo
Respirado no toque
Dos teus lábios do desejo
Corpo que pede para amar

Amas,
Como quem ama o que pousa
Onde dita a sorte mundana
Na gruta firme de ardor sedenta
De na opulência sangrar

Sagras-me
Beijas-me
Pousas-me

No leito calmo de um lago
Onde fervores atrozes se afogam
E lírios frondosos renascem
Esculpindo ansiosos
A vontade de respirar

10.04.2007

Passam sinais despercebidos
Não há-de surpresa ser a guerra
Como se fossem merecidos
Rebentar nesta terra
Não quiseram dar ouvidos
Ao gume da lâmina na pedra
Que afiavam entretidos

Ninguém escutou os sinais
Aceitaram-nos rendidos
Murmúrios afiados como punhais
Sussurros que falecem esmorecidos

10.03.2007

Deixa passar a chuvada
Lava a cara das lágrimas
Era o céu a derramar-se sobre a terra
Limpando a alma da água
Por isso sorri quando elas caem
Dá graças por chover nesta terra

Deixai-te ir pela corrente que te leva
Por esse rio abaixo
Que sem pensar te leva
Para a foz do pensamento
Onde a mágoa da razão desagua

E nele verás liberto
O caminho que se aventura

10.02.2007

Colocai-lhe uma moeda sob a língua defunta
Metal ganho por valor lamentável
E sem querer dizei ao rio
Pagais a barca que esta margem lhe deixa,
Sem o ouro navegas seu vazio

Mas há-de vir ladrão de sepultura
Desvendar riqueza enterrada
E nela sedento encontrar
Tesouro de ouro, moeda pura!

Deixai-o vir! Avareza escavar.

Eis que elegendo a cobiça a ser pio
Morte cavada a seu bolso convocará
Barca negra até ao fundo do rio
Para longe desta quimera o arrancará

Ardilosa a sua sepultura revolveu
Aquela que barca incerta deixou
O homem que te roubou a moeda de ouro
Era pobre e lá ficou