Fina a linha que une céu e mar
Longe está ela do teu olhar
Fina a linha que te separa
O mar de desejo navegado
Da longínqua ilha que amparas
Fina a linha que te submete
À mais odiosa dualidade
Que para este mar te atira
Sem qualquer dó nem piedade
Fina a linhagem que te caminha
É miragem a ilha que avistas
Ou vislumbras a verdade?
Lançaste a caravela ao vento
Para desta terra te apartares
Ó homem ingrato! Não te basta!
Fizeste do teu berço uma barca
Tu mereces a dor da saudade
Fina ironia a da tua casta
O Adamastor, o espantalho, o rapaz. O guerreiro, a planície, os pardais, as gaivotas e os vendavais, entre outros arquétipos ancestrais. O sangue que escorre dos punhos ou a paz que se leva aos outros. A liberdade, essa, não sei se a atingi nem ninguém. Mais um ideal dos homens para conversarem à luz da fogueira. Apenas mais um dos que comem na mesa do sagrado e do profano.AM
10.30.2007
Insónia
Em cama vazia, se deita um ser, ao abrigo da noite clara de insónia.
Um homem só, com a sua mente, procura encher-se daquilo que não tem. Tenciona preencher em tensão um vazio de significados. Devia-lhe bastar os sentidos. Degustá-los irreflectido, para que a sua solidão fizesse sentido. Para que a saboreasse na companhia do Sentido não intencionado. Mais difícil do que distrair-se é abstrair-se da distracção. De si poderá tentar fugir, mas para além de si nada mais intentará. Precisará de consolo se não se consolar em dar-se aos sentidos. Se quiser agarrar o significado, este não o abraçará.
Um homem só, com a sua mente, procura encher-se daquilo que não tem. Tenciona preencher em tensão um vazio de significados. Devia-lhe bastar os sentidos. Degustá-los irreflectido, para que a sua solidão fizesse sentido. Para que a saboreasse na companhia do Sentido não intencionado. Mais difícil do que distrair-se é abstrair-se da distracção. De si poderá tentar fugir, mas para além de si nada mais intentará. Precisará de consolo se não se consolar em dar-se aos sentidos. Se quiser agarrar o significado, este não o abraçará.
10.25.2007
- Tenho pena se te fores – balbuciou o rapaz ao gigante.
- É um prazer para mim partir. Será um prazer quando esse dia chegar, agradecer o que me ensinaram – Falou erguido sobre o mar – na verdade já parti…. – Disse, ofuscando o céu de negro.
- Porque te mostraste, Adamastor?
- Para que não me temesses. Atiraste-te às vagas, como quem ama a tormenta. Foste digno de perecer onde os dois mares se cruzam.
- E o que ganhei? – perguntou o rapaz.
- Nada ganhaste. O que nos é dado, a qualquer momento é retirado. Ganhaste nada.
- É um prazer para mim partir. Será um prazer quando esse dia chegar, agradecer o que me ensinaram – Falou erguido sobre o mar – na verdade já parti…. – Disse, ofuscando o céu de negro.
- Porque te mostraste, Adamastor?
- Para que não me temesses. Atiraste-te às vagas, como quem ama a tormenta. Foste digno de perecer onde os dois mares se cruzam.
- E o que ganhei? – perguntou o rapaz.
- Nada ganhaste. O que nos é dado, a qualquer momento é retirado. Ganhaste nada.
10.23.2007
A Ceifeira
Ousaste esquecer-te da sombra
Na viela recôndita que espia
Escorreita entre o bosque sombrio
O teu passo apressado presencia
Hás-de querer virar-lhe as costas
Na esperança que não cheire o medo
Dentes raivosos que rangem
Da tua carne ressoando tão cedo
És equilibrista em corda bamba
Estirada pela mão da morte
Para a qual ziguezagueias na esperança
Dos efémeros aplausos da sorte
Dormes sobre o seu velório
A ceifeira que aconchega o leito
Na qual inclinas para dormir
A rosa seca que murchou teu peito
E em cada manhã que encanta
Rogas pragas à tua sorte
Ao pescoço que se esquivou da foice
Ao fantasma que enganou a morte
Na viela recôndita que espia
Escorreita entre o bosque sombrio
O teu passo apressado presencia
Hás-de querer virar-lhe as costas
Na esperança que não cheire o medo
Dentes raivosos que rangem
Da tua carne ressoando tão cedo
És equilibrista em corda bamba
Estirada pela mão da morte
Para a qual ziguezagueias na esperança
Dos efémeros aplausos da sorte
Dormes sobre o seu velório
A ceifeira que aconchega o leito
Na qual inclinas para dormir
A rosa seca que murchou teu peito
E em cada manhã que encanta
Rogas pragas à tua sorte
Ao pescoço que se esquivou da foice
Ao fantasma que enganou a morte
Ruínas
Escava o homem a terra
Na senda de arquétipo submerso
Potes, ossos, pedras
Em busca do homem perdido
Fósseis, flechas, guerras
Em busca do homem perdido
O único animal que se estranha
Esgaravata arqueólogo a terra
Achados, perdidos, encontrados
Revira o homem sua entranha
Na senda de arquétipo submerso
Potes, ossos, pedras
Em busca do homem perdido
Fósseis, flechas, guerras
Em busca do homem perdido
O único animal que se estranha
Esgaravata arqueólogo a terra
Achados, perdidos, encontrados
Revira o homem sua entranha
Olhais para o mar revoltado
o palhaço que pesca aflito
que pesca ele perdido
na imensidão daquele conflito?
Aí vem a tempestade negra
caótica sobre o céu o mar acerca
pássaros e seres afugentados
paisagem sombria de vida deserta
salvaram-se nas tocas remediados
e sobre as dunas silva o vento apenas
vontade pura da violenta desventura
que ninguém quer encarar
e só há um que se lança ao mar
para as vagas defrontar
o que se ama perdido da tormenta
na inconstância daquele mar
o palhaço que pesca aflito
que pesca ele perdido
na imensidão daquele conflito?
Aí vem a tempestade negra
caótica sobre o céu o mar acerca
pássaros e seres afugentados
paisagem sombria de vida deserta
salvaram-se nas tocas remediados
e sobre as dunas silva o vento apenas
vontade pura da violenta desventura
que ninguém quer encarar
e só há um que se lança ao mar
para as vagas defrontar
o que se ama perdido da tormenta
na inconstância daquele mar
10.17.2007
O Andrajoso
E assim se cruzam no deserto
Peregrinos que apaziguam o caminho
E ao se cruzarem peregrinos
No deserto encontram seu destino
Julgaste que ao vento falavas
Quando a tua voz sobre as dunas ecoou
Mas sob as dunas dormia um peregrino
Que a voz mais deserta ele sonhou
Julgavas que falavas sozinho
Mas a tua palavra não coube no corpo
Ela é luz que trespassa em voo
O olhar do caminhante que avistou o corvo
Tu falavas da imensidão incansável
Estendida para alem das dunas
Que os pés doridos sabiam alcançável
Mar onde almas caminhantes vivem unas
Caminhaste deserto, peregrino andante
Sem saberes que pés te moviam
Na direcção do horizonte distante
Para onde peregrinos te seguiam
Peregrinos que apaziguam o caminho
E ao se cruzarem peregrinos
No deserto encontram seu destino
Julgaste que ao vento falavas
Quando a tua voz sobre as dunas ecoou
Mas sob as dunas dormia um peregrino
Que a voz mais deserta ele sonhou
Julgavas que falavas sozinho
Mas a tua palavra não coube no corpo
Ela é luz que trespassa em voo
O olhar do caminhante que avistou o corvo
Tu falavas da imensidão incansável
Estendida para alem das dunas
Que os pés doridos sabiam alcançável
Mar onde almas caminhantes vivem unas
Caminhaste deserto, peregrino andante
Sem saberes que pés te moviam
Na direcção do horizonte distante
Para onde peregrinos te seguiam
10.11.2007
Esquece
Esquece que as palavras são nada
E que não há discussão possível
Que pronuncie o âmago
Esquece que as palavras são fúteis
Quando atiradas à cautela da mente
Esquece-te nelas
Mergulha apenas nas palavras
Que gorjeiam das entranhas
E esquece as palavras ditas
Pelos homens esquecidos da Palavra
À mercê do vento dormente
Esquece-te
E que não há discussão possível
Que pronuncie o âmago
Esquece que as palavras são fúteis
Quando atiradas à cautela da mente
Esquece-te nelas
Mergulha apenas nas palavras
Que gorjeiam das entranhas
E esquece as palavras ditas
Pelos homens esquecidos da Palavra
À mercê do vento dormente
Esquece-te
10.10.2007
Beijas,
Como se quisesses respirar a vontade que transpira
E na vontade confiasses o anseio de respirar
De tocar
Tocas,
Como se quisesses esculpir a carne
Tributo erecto a um beijo
Respirado no toque
Dos teus lábios do desejo
Corpo que pede para amar
Amas,
Como quem ama o que pousa
Onde dita a sorte mundana
Na gruta firme de ardor sedenta
De na opulência sangrar
Sagras-me
Beijas-me
Pousas-me
No leito calmo de um lago
Onde fervores atrozes se afogam
E lírios frondosos renascem
Esculpindo ansiosos
A vontade de respirar
Como se quisesses respirar a vontade que transpira
E na vontade confiasses o anseio de respirar
De tocar
Tocas,
Como se quisesses esculpir a carne
Tributo erecto a um beijo
Respirado no toque
Dos teus lábios do desejo
Corpo que pede para amar
Amas,
Como quem ama o que pousa
Onde dita a sorte mundana
Na gruta firme de ardor sedenta
De na opulência sangrar
Sagras-me
Beijas-me
Pousas-me
No leito calmo de um lago
Onde fervores atrozes se afogam
E lírios frondosos renascem
Esculpindo ansiosos
A vontade de respirar
10.04.2007
10.03.2007
Deixa passar a chuvada
Lava a cara das lágrimas
Era o céu a derramar-se sobre a terra
Limpando a alma da água
Por isso sorri quando elas caem
Dá graças por chover nesta terra
Deixai-te ir pela corrente que te leva
Por esse rio abaixo
Que sem pensar te leva
Para a foz do pensamento
Onde a mágoa da razão desagua
E nele verás liberto
O caminho que se aventura
Lava a cara das lágrimas
Era o céu a derramar-se sobre a terra
Limpando a alma da água
Por isso sorri quando elas caem
Dá graças por chover nesta terra
Deixai-te ir pela corrente que te leva
Por esse rio abaixo
Que sem pensar te leva
Para a foz do pensamento
Onde a mágoa da razão desagua
E nele verás liberto
O caminho que se aventura
10.02.2007
Colocai-lhe uma moeda sob a língua defunta
Metal ganho por valor lamentável
E sem querer dizei ao rio
Pagais a barca que esta margem lhe deixa,
Sem o ouro navegas seu vazio
Mas há-de vir ladrão de sepultura
Desvendar riqueza enterrada
E nela sedento encontrar
Tesouro de ouro, moeda pura!
Deixai-o vir! Avareza escavar.
Eis que elegendo a cobiça a ser pio
Morte cavada a seu bolso convocará
Barca negra até ao fundo do rio
Para longe desta quimera o arrancará
Ardilosa a sua sepultura revolveu
Aquela que barca incerta deixou
O homem que te roubou a moeda de ouro
Era pobre e lá ficou
Metal ganho por valor lamentável
E sem querer dizei ao rio
Pagais a barca que esta margem lhe deixa,
Sem o ouro navegas seu vazio
Mas há-de vir ladrão de sepultura
Desvendar riqueza enterrada
E nela sedento encontrar
Tesouro de ouro, moeda pura!
Deixai-o vir! Avareza escavar.
Eis que elegendo a cobiça a ser pio
Morte cavada a seu bolso convocará
Barca negra até ao fundo do rio
Para longe desta quimera o arrancará
Ardilosa a sua sepultura revolveu
Aquela que barca incerta deixou
O homem que te roubou a moeda de ouro
Era pobre e lá ficou
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