11.18.2007

Sepultado em tumulo poeirento

Livros esquecidos.
Jaz imóvel, em poltrona bolorenta
Filósofo distraído
Imagem desbotada do que exasperou

Nada foi para além do gesto
Por maior a prosa sofrida
Por maior a escrita palmilhada
Ou dialéctica esgrimida
Ruminado por traças que o tumulam
Por maior a platónica oratória

E a história repetir-se-á
Para gáudio das bafientas bibliotecas
De que a história se desfez satisfeita
Não deu á luz nada
Que antes não tivesse nascido
E dele morrido a oriente, noutros berços

Para que outra criança voltasse
E tocasse no fogo
E o brandisse como estandarte.

Assinar não lhe foi permitido,
As últimas palavras que rabiscou
Soltaram-lhe a mão aberta
Em gesto derradeiro
A pena no chão liberta
Para o fim do seu sepulcro
Escreverem

Repousa em cadeirão bafiento
Livros esquecidos
Nuvem sumida do que atormentou

11.13.2007

Voam aves distantes no céu
Rumo a longínqua primavera
Como se desta daqui ida
Se apartassem já ausentes

Porque não voas connosco?
Porque olhas o triângulo no ar?
Porque assentas nessa terra?
Porque ficas aí a pensar?

Olha o sonho que tiveram
Dos ventos quentes do sul!
Pousados nos lagos nocturnos
Onde se enrolam para dormir

Que vertigem te aflige?
Porque não ousas levantar?
Espraiar asas ao raiar?
Estender olhos no fim do mar?

Na frente daquele triangulo
Voa um pássaro destemido
Que sonhou mais alto que todos
Que já não sabe acordar

Porque fizeste casa tão grande?
Porque não a fizeste de palha?
Porque te apegas à obra?
Porque não acordas onde calha?

Rumo aos mundos do sul voam
Perdidos deste pensar
No qual me deixam esperançados
Que um dia irão voltar

Queres ficar por aí?
Não ter asas para nascer?
Queres fincar os pés na terra?
Ver tua alma esmorecer?

Fico-me com a geometria
Admirar o triângulo sem o ser
Foi assim que me ensinaram
Homens sem asas, sem poder.