12.21.2007

O Rapaz e O Espantalho

Guardas o silêncio da planície?
Ó Espantalho esfarrapado!
Porque afugentas a palrice
Dos pardais atribulados?

Velo pela espiga de ouro
Pelo descanso da seara
Fui concebido mouro
Da paz desta estrada

Porque apavoras ao alvorar
Os passarinhos com desdém?
Trazem Ideias no chilrear?
Que mal sua inocência tem?

Sob o meu corpo de palha
Não oiço de noite um pio
Dormem sob as minhas mangas
Faça chuva, vento ou frio

Não é calvário nem pranto
O que aceitas sem temor?
Cobrir de silêncio manto
A planície ao alvor?

Sou só seara, não tenho pena
De contemplar a solidão
Os homens precisam de sistemas
Para lhes dizerem aquilo que são

Estava apenas a passar
E vi-te aí de braços no ar
De chapéu, palha e trapos
Apeteceu-me perguntar

Que importa teologia alheia
Se vês o Monstro no mar?
E ao mergulhar te sentires
Teofania a flutuar?

Obrigado, espantalho amigo
Bendito sejam os teus pardais
Nas palhas tuas ao abrigo
De noites e negros temporais

12.11.2007

Avenida do Palhaço

O palhaço pintou
Um sorriso rasgado
O palhaço pintou
Uma lágrima sentida
O palhaço abriu os braços
No meio da avenida
E ninguém abraçou
O palhaço desgraçado
Que pintou a rua
De luzidia

Gentios que se apressam
Semáforos que se fecham
Amarelo, vermelho, verde
Vultos que se acotovelam
Obtusos, pedestres, cinzentos
Ninguém quer olhar
Para a porta do circo
Com medo de se encerrar

Ninguém ousou
Fitar o palhaço
Nos olhos pintados
Com medo
De se abraçar

É deles o estertor?
De braços abertos
O seu redentor
Olha o palhaço!

Pagarão bom preço
Para mais tarde
Com o palhaço falar

Olha o palhaço!
No meio da avenida
Olha a avenida do palhaço
Porque a calcorreiam
Andarilhos baços
Sem para ele olhar?

O palhaço pintou
As cores do semáforo
Que os fazem andar

12.05.2007

Nevoeiro

Na bruma do nevoeiro
Encontram os olhos clausura
De nada ver pelo meio
Do céu caído da altura

Na densidade do fumeiro
Onde os olhos vêm nada
Assoma-se vulto estranho
Erguendo uma espada

Qual o caminho da guerra?
Inquire aparição de guerreiro
Que direcção tomo na terra?
Perscruta no olhar certeiro

Deixa-te ir no nevoeiro
Oculta-te do inimigo
Invisível pelo meio
Encapotado do perigo

Aquele que pisar teu reino
Na bruma densa penetrar
Será criança sem treino
No mistério do teu lar

Cercado pela assombração
Nada mais lhe restará
Que render-se à perdição
Pois tombado já estará

Ouvirá o ranger do aço
Desembainhado na claridade
E sua cabeça será pedaço
Tombado na posteridade