Guardas o silêncio da planície?
Ó Espantalho esfarrapado!
Porque afugentas a palrice
Dos pardais atribulados?
Velo pela espiga de ouro
Pelo descanso da seara
Fui concebido mouro
Da paz desta estrada
Porque apavoras ao alvorar
Os passarinhos com desdém?
Trazem Ideias no chilrear?
Que mal sua inocência tem?
Sob o meu corpo de palha
Não oiço de noite um pio
Dormem sob as minhas mangas
Faça chuva, vento ou frio
Não é calvário nem pranto
O que aceitas sem temor?
Cobrir de silêncio manto
A planície ao alvor?
Sou só seara, não tenho pena
De contemplar a solidão
Os homens precisam de sistemas
Para lhes dizerem aquilo que são
Estava apenas a passar
E vi-te aí de braços no ar
De chapéu, palha e trapos
Apeteceu-me perguntar
Que importa teologia alheia
Se vês o Monstro no mar?
E ao mergulhar te sentires
Teofania a flutuar?
Obrigado, espantalho amigo
Bendito sejam os teus pardais
Nas palhas tuas ao abrigo
De noites e negros temporais
O Adamastor, o espantalho, o rapaz. O guerreiro, a planície, os pardais, as gaivotas e os vendavais, entre outros arquétipos ancestrais. O sangue que escorre dos punhos ou a paz que se leva aos outros. A liberdade, essa, não sei se a atingi nem ninguém. Mais um ideal dos homens para conversarem à luz da fogueira. Apenas mais um dos que comem na mesa do sagrado e do profano.AM
12.21.2007
12.11.2007
Avenida do Palhaço
O palhaço pintou
Um sorriso rasgado
O palhaço pintou
Uma lágrima sentida
O palhaço abriu os braços
No meio da avenida
E ninguém abraçou
O palhaço desgraçado
Que pintou a rua
De luzidia
Gentios que se apressam
Semáforos que se fecham
Amarelo, vermelho, verde
Vultos que se acotovelam
Obtusos, pedestres, cinzentos
Ninguém quer olhar
Para a porta do circo
Com medo de se encerrar
Ninguém ousou
Fitar o palhaço
Nos olhos pintados
Com medo
De se abraçar
É deles o estertor?
De braços abertos
O seu redentor
Olha o palhaço!
Pagarão bom preço
Para mais tarde
Com o palhaço falar
Olha o palhaço!
No meio da avenida
Olha a avenida do palhaço
Porque a calcorreiam
Andarilhos baços
Sem para ele olhar?
O palhaço pintou
As cores do semáforo
Que os fazem andar
Um sorriso rasgado
O palhaço pintou
Uma lágrima sentida
O palhaço abriu os braços
No meio da avenida
E ninguém abraçou
O palhaço desgraçado
Que pintou a rua
De luzidia
Gentios que se apressam
Semáforos que se fecham
Amarelo, vermelho, verde
Vultos que se acotovelam
Obtusos, pedestres, cinzentos
Ninguém quer olhar
Para a porta do circo
Com medo de se encerrar
Ninguém ousou
Fitar o palhaço
Nos olhos pintados
Com medo
De se abraçar
É deles o estertor?
De braços abertos
O seu redentor
Olha o palhaço!
Pagarão bom preço
Para mais tarde
Com o palhaço falar
Olha o palhaço!
No meio da avenida
Olha a avenida do palhaço
Porque a calcorreiam
Andarilhos baços
Sem para ele olhar?
O palhaço pintou
As cores do semáforo
Que os fazem andar
12.07.2007
12.05.2007
Nevoeiro
Na bruma do nevoeiro
Encontram os olhos clausura
De nada ver pelo meio
Do céu caído da altura
Na densidade do fumeiro
Onde os olhos vêm nada
Assoma-se vulto estranho
Erguendo uma espada
Qual o caminho da guerra?
Inquire aparição de guerreiro
Que direcção tomo na terra?
Perscruta no olhar certeiro
Deixa-te ir no nevoeiro
Oculta-te do inimigo
Invisível pelo meio
Encapotado do perigo
Aquele que pisar teu reino
Na bruma densa penetrar
Será criança sem treino
No mistério do teu lar
Cercado pela assombração
Nada mais lhe restará
Que render-se à perdição
Pois tombado já estará
Ouvirá o ranger do aço
Desembainhado na claridade
E sua cabeça será pedaço
Tombado na posteridade
Encontram os olhos clausura
De nada ver pelo meio
Do céu caído da altura
Na densidade do fumeiro
Onde os olhos vêm nada
Assoma-se vulto estranho
Erguendo uma espada
Qual o caminho da guerra?
Inquire aparição de guerreiro
Que direcção tomo na terra?
Perscruta no olhar certeiro
Deixa-te ir no nevoeiro
Oculta-te do inimigo
Invisível pelo meio
Encapotado do perigo
Aquele que pisar teu reino
Na bruma densa penetrar
Será criança sem treino
No mistério do teu lar
Cercado pela assombração
Nada mais lhe restará
Que render-se à perdição
Pois tombado já estará
Ouvirá o ranger do aço
Desembainhado na claridade
E sua cabeça será pedaço
Tombado na posteridade
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