Guardas o silêncio da planície?
Ó Espantalho esfarrapado!
Porque afugentas a palrice
Dos pardais atribulados?
Velo pela espiga de ouro
Pelo descanso da seara
Fui concebido mouro
Da paz desta estrada
Porque apavoras ao alvorar
Os passarinhos com desdém?
Trazem Ideias no chilrear?
Que mal sua inocência tem?
Sob o meu corpo de palha
Não oiço de noite um pio
Dormem sob as minhas mangas
Faça chuva, vento ou frio
Não é calvário nem pranto
O que aceitas sem temor?
Cobrir de silêncio manto
A planície ao alvor?
Sou só seara, não tenho pena
De contemplar a solidão
Os homens precisam de sistemas
Para lhes dizerem aquilo que são
Estava apenas a passar
E vi-te aí de braços no ar
De chapéu, palha e trapos
Apeteceu-me perguntar
Que importa teologia alheia
Se vês o Monstro no mar?
E ao mergulhar te sentires
Teofania a flutuar?
Obrigado, espantalho amigo
Bendito sejam os teus pardais
Nas palhas tuas ao abrigo
De noites e negros temporais