Perfeita sepultura
Vi a morte no teu rosto
Cavar vales profundos
De miserável desgosto
Engoliste em seco
O vazio absoluto
Quiseste acreditar
No elixir resoluto
Não vais largar este mundo
Sem ver a futilidade
Do vendilhão do templo
Desvendar a felicidade
Vais notar que em montras mortas
Habitam, consumistas absortas
Almas enganadas pela luz
De negras, negras portas
Brilha ainda, vã esperança
Em rugas e olhos perdidos
O sorriso de uma criança
Por trilhos merecidos
Desampara os vales estéreis
Galga a vereda da fonte
Mirarás como as colinas
São todas verdes montes
O Adamastor, o espantalho, o rapaz. O guerreiro, a planície, os pardais, as gaivotas e os vendavais, entre outros arquétipos ancestrais. O sangue que escorre dos punhos ou a paz que se leva aos outros. A liberdade, essa, não sei se a atingi nem ninguém. Mais um ideal dos homens para conversarem à luz da fogueira. Apenas mais um dos que comem na mesa do sagrado e do profano.AM
1.31.2008
1.29.2008
Há qualquer coisa que não é coisa
Que me faz erguer a mão
Que me soergue do chão
Há qualquer coisa indefinida
Que define todas as coisas
Que me impele a intenção
Há qualquer coisa
Que a gaivota vê no ar
E que a atravessa
Enquanto estou a boiar
Deitado sobre o mar
Perdido na espiral
De qualquer coisa que não é coisa
Que me entontece a pairar
É uma gaivota que me trespassa
É qualquer coisa que com ela,
Esvoaça
O olho da gaivota
É grande bola de cristal
Negra, baça
Perscruta qualquer coisa
Que é coisa nenhuma
Que me faz erguer a mão
Que me soergue do chão
Há qualquer coisa indefinida
Que define todas as coisas
Que me impele a intenção
Há qualquer coisa
Que a gaivota vê no ar
E que a atravessa
Enquanto estou a boiar
Deitado sobre o mar
Perdido na espiral
De qualquer coisa que não é coisa
Que me entontece a pairar
É uma gaivota que me trespassa
É qualquer coisa que com ela,
Esvoaça
O olho da gaivota
É grande bola de cristal
Negra, baça
Perscruta qualquer coisa
Que é coisa nenhuma
1.27.2008
Faina do Pescador
Lançaste rede ao mar,
Que peixes apanhaste?
Apanhaste os desgraçados
Os estripados e drogados
Apanhaste os malditos
Os inglórios e esquecidos
Os vilões e os bandidos
Perdidos nas negras águas
Imersos na escuridão
Apanhaste os corrompidos
Os ignóbeis e perdidos
Não sabes que lá no fundo
Viviam em temor?
Em cada homem afogado
Deformado pelo ardor
Uma esperança palpitava
Um braço fundo aclamava
Pela tua rede lançada?
Que comes tu hoje pescador?
Aquilo que te vier à rede?
O Peixe em teu prato
A faina do teu labor
Ergue-se anzol astro rei
Sobre o fundo do mar
Onde se deita a noite sombria
Ergue-se para os guiar
Que peixes apanhaste?
Apanhaste os desgraçados
Os estripados e drogados
Apanhaste os malditos
Os inglórios e esquecidos
Os vilões e os bandidos
Perdidos nas negras águas
Imersos na escuridão
Apanhaste os corrompidos
Os ignóbeis e perdidos
Não sabes que lá no fundo
Viviam em temor?
Em cada homem afogado
Deformado pelo ardor
Uma esperança palpitava
Um braço fundo aclamava
Pela tua rede lançada?
Que comes tu hoje pescador?
Aquilo que te vier à rede?
O Peixe em teu prato
A faina do teu labor
Ergue-se anzol astro rei
Sobre o fundo do mar
Onde se deita a noite sombria
Ergue-se para os guiar
1.23.2008
Arco Venéreo
Relaxando a corda do arco
Que lhe aperta o peito
Não há seta que dispare
Que não acerte a jeito
Nada esconde em clausura
Digno do seu leito
Coração transparente
O do pequeno arqueiro
Em que coração acertará
A criança de arco na mão
Só o coração alvo o dirá
Quão certeira foi a compaixão
Padecerá da ferida que a seta causou
A criança aflita no alvo acertou
Foi transparência que a apaixonou
Em coração sagrado se transfigurou
Que lhe aperta o peito
Não há seta que dispare
Que não acerte a jeito
Nada esconde em clausura
Digno do seu leito
Coração transparente
O do pequeno arqueiro
Em que coração acertará
A criança de arco na mão
Só o coração alvo o dirá
Quão certeira foi a compaixão
Padecerá da ferida que a seta causou
A criança aflita no alvo acertou
Foi transparência que a apaixonou
Em coração sagrado se transfigurou
1.22.2008
Shakuhachi
Ecoou, sopro da contemplação
A flauta de bambu que cantava
Junto ao crepitar do lume
Onde a chaleira borbulhava
O último pôr-do-sol, clarividente
A última dádiva na terra,
A última de todas!
Para beber em admiração
Esvaiu-se o sopro do bambu
Pintou de ouro o silêncio
Os olhos que se fecham
Perdidos na infância revista
Do homem porvir
Sumido na exalação
Da memória que se deita
Longínqua, a poente
Há uma flauta que canta,
Submersa em meia-luz
Nem todos a ouvem,
Sopro da contemplação
...
A flauta de bambu que cantava
Junto ao crepitar do lume
Onde a chaleira borbulhava
O último pôr-do-sol, clarividente
A última dádiva na terra,
A última de todas!
Para beber em admiração
Esvaiu-se o sopro do bambu
Pintou de ouro o silêncio
Os olhos que se fecham
Perdidos na infância revista
Do homem porvir
Sumido na exalação
Da memória que se deita
Longínqua, a poente
Há uma flauta que canta,
Submersa em meia-luz
Nem todos a ouvem,
Sopro da contemplação
...
1.17.2008
Ri-te, ri-te meu amigo
Aproveita agora,
Eu não te contagio
Ri-te agora, sem demora
Sorri de forma rasgada
Como se contemplasses
A face de deus numa ninfa
Habilmente talhada
Ri-te, ri-te, meu amigo
Mesmo para o teu inimigo
Destrói o que ele julga
Ser seu juízo temido
Sorri de forma rasgada
Deixa que os outros te olhem
Pois quando a tua alma sorrir
Verão que é da face encantada
Aproveita agora,
Eu não te contagio
Ri-te agora, sem demora
Sorri de forma rasgada
Como se contemplasses
A face de deus numa ninfa
Habilmente talhada
Ri-te, ri-te, meu amigo
Mesmo para o teu inimigo
Destrói o que ele julga
Ser seu juízo temido
Sorri de forma rasgada
Deixa que os outros te olhem
Pois quando a tua alma sorrir
Verão que é da face encantada
1.16.2008
- Diz-me espantalho encarecido,
Porque pousa no teu braço o pardal
Como se fosse simples galho?
Tu assemelhas o homem original…
- Eu sou apenas a sombra
De um homem nascido nas palhas
A seara não existe
É tudo o que a antecede
E o que nela persiste
Semente à terra lançada
Luz que o sol fulgura
Pardal que a degusta
Ceifa que a desbasta
Julgas que a mão é tua?
Que na tua ideia se basta?
Cuidas que pousarão
Se ao cosmos não a cederes?
A seara apenas nos serve,
A tua mão, que serve ela?
A seara não pensa
É apenas passagem
De um ser para o outro
A seara não existe
Para além do que a prevalece
Porque haveriam eles querer
Na tua gaiola pousar?
Não sou padreco em diocese
Sou guardião desta clareira
Não esperes de mim catequese
Encontra a tua, à tua maneira
Há sempre uma angústia profunda
Corcunda, no mais sábio dos homens
De ignorar ou descrer
Porque se alheia o pássaro
Da douta mão merecida
Mete as teorias no bolso,
Rapaz, faz-te à estrada!
Enterra as mãos na algibeira
Não servem esta enxada!
Cospes no prato que comes
Sem benzeres o trigo que acolhi
Não fazes jus à espiga
Que fez deste campo um jardim
Não voltes a comer deste pão
Sem dar graças à terra lavrada
Sem louvar a sombra do homem
Que abriu o sulco com a enxada
Porque pousa no teu braço o pardal
Como se fosse simples galho?
Tu assemelhas o homem original…
- Eu sou apenas a sombra
De um homem nascido nas palhas
A seara não existe
É tudo o que a antecede
E o que nela persiste
Semente à terra lançada
Luz que o sol fulgura
Pardal que a degusta
Ceifa que a desbasta
Julgas que a mão é tua?
Que na tua ideia se basta?
Cuidas que pousarão
Se ao cosmos não a cederes?
A seara apenas nos serve,
A tua mão, que serve ela?
A seara não pensa
É apenas passagem
De um ser para o outro
A seara não existe
Para além do que a prevalece
Porque haveriam eles querer
Na tua gaiola pousar?
Não sou padreco em diocese
Sou guardião desta clareira
Não esperes de mim catequese
Encontra a tua, à tua maneira
Há sempre uma angústia profunda
Corcunda, no mais sábio dos homens
De ignorar ou descrer
Porque se alheia o pássaro
Da douta mão merecida
Mete as teorias no bolso,
Rapaz, faz-te à estrada!
Enterra as mãos na algibeira
Não servem esta enxada!
Cospes no prato que comes
Sem benzeres o trigo que acolhi
Não fazes jus à espiga
Que fez deste campo um jardim
Não voltes a comer deste pão
Sem dar graças à terra lavrada
Sem louvar a sombra do homem
Que abriu o sulco com a enxada
1.14.2008
Desce um mocho alado
Sobre o mártir no chão caído
E no ombro pousado esvoaça
Um sussurro ao seu ouvido
Levanta-te besta!
Agarra à espada!
A tua morte singela
Não é o fim desta estrada!
Eis que por fim se levanta, moribundo,
O homem farto de cruzada
E esquarteja com golpe profundo
O abismo que a sombra habitava
Jaz livremente deitado
Ferido pelo seu inimigo
E no vasto campo ensanguentado
Pergunta ao anjo caído:
-Até que a morte nos separe...
Do quê, divindade?
No abismo defrontei o maldito
Responde-me, por caridade
-Verás quando ela chegar
Sem qualquer dó nem piedade
Caro herói supliciado
Apartar-te da opacidade.
Sobre o mártir no chão caído
E no ombro pousado esvoaça
Um sussurro ao seu ouvido
Levanta-te besta!
Agarra à espada!
A tua morte singela
Não é o fim desta estrada!
Eis que por fim se levanta, moribundo,
O homem farto de cruzada
E esquarteja com golpe profundo
O abismo que a sombra habitava
Jaz livremente deitado
Ferido pelo seu inimigo
E no vasto campo ensanguentado
Pergunta ao anjo caído:
-Até que a morte nos separe...
Do quê, divindade?
No abismo defrontei o maldito
Responde-me, por caridade
-Verás quando ela chegar
Sem qualquer dó nem piedade
Caro herói supliciado
Apartar-te da opacidade.
1.01.2008
O Espantalho e O Adamastor
Indagou o Adamastor:
-O rapaz que por ti passou
Pareceu-te farsante?
Ou acordou no espírito?
No murmúrio da ribeira cintilante?
No frio do orvalho gotejante?
Respingou o Espantalho:
- Quer encenar ainda a farsa
Acordou na carne fantástica
Quer montar o palco
Do espelho que o ego abraça
Contraiu os olhos à luz
Do sol que ofuscou a garça
Bafejou o Adamastor:
-Verá o monstro trovão rugir,
Asas imensas aflorando o ar
Bafo fatal o incendiará
Fardo queimado, para o vento levar
Ao seu destino deixa-lo ir
- Minha palha pode o monstro redimir
Não temo nem fogo nem perigo
Apenas pelos pardais estremeço
Que se lhes vá o protegido abrigo
-Não receies, Espantalho querido
Que raio algum te atingirá
És testemunha do trigo
Colheita sem ti não haverá
Dispersou o Adamastor
Na noite estrelada
E a brisa suspirou
No dançar da seara:
- Apenas o fardo morre
A vida é um portal
Julga-se mais do que a sombra
Batom, pó e rímel
Não sabe onde fica
A sua terra natal.
-O rapaz que por ti passou
Pareceu-te farsante?
Ou acordou no espírito?
No murmúrio da ribeira cintilante?
No frio do orvalho gotejante?
Respingou o Espantalho:
- Quer encenar ainda a farsa
Acordou na carne fantástica
Quer montar o palco
Do espelho que o ego abraça
Contraiu os olhos à luz
Do sol que ofuscou a garça
Bafejou o Adamastor:
-Verá o monstro trovão rugir,
Asas imensas aflorando o ar
Bafo fatal o incendiará
Fardo queimado, para o vento levar
Ao seu destino deixa-lo ir
- Minha palha pode o monstro redimir
Não temo nem fogo nem perigo
Apenas pelos pardais estremeço
Que se lhes vá o protegido abrigo
-Não receies, Espantalho querido
Que raio algum te atingirá
És testemunha do trigo
Colheita sem ti não haverá
Dispersou o Adamastor
Na noite estrelada
E a brisa suspirou
No dançar da seara:
- Apenas o fardo morre
A vida é um portal
Julga-se mais do que a sombra
Batom, pó e rímel
Não sabe onde fica
A sua terra natal.
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