- Diz-me espantalho encarecido,
Porque pousa no teu braço o pardal
Como se fosse simples galho?
Tu assemelhas o homem original…
- Eu sou apenas a sombra
De um homem nascido nas palhas
A seara não existe
É tudo o que a antecede
E o que nela persiste
Semente à terra lançada
Luz que o sol fulgura
Pardal que a degusta
Ceifa que a desbasta
Julgas que a mão é tua?
Que na tua ideia se basta?
Cuidas que pousarão
Se ao cosmos não a cederes?
A seara apenas nos serve,
A tua mão, que serve ela?
A seara não pensa
É apenas passagem
De um ser para o outro
A seara não existe
Para além do que a prevalece
Porque haveriam eles querer
Na tua gaiola pousar?
Não sou padreco em diocese
Sou guardião desta clareira
Não esperes de mim catequese
Encontra a tua, à tua maneira
Há sempre uma angústia profunda
Corcunda, no mais sábio dos homens
De ignorar ou descrer
Porque se alheia o pássaro
Da douta mão merecida
Mete as teorias no bolso,
Rapaz, faz-te à estrada!
Enterra as mãos na algibeira
Não servem esta enxada!
Cospes no prato que comes
Sem benzeres o trigo que acolhi
Não fazes jus à espiga
Que fez deste campo um jardim
Não voltes a comer deste pão
Sem dar graças à terra lavrada
Sem louvar a sombra do homem
Que abriu o sulco com a enxada