Indagou o Adamastor:
-O rapaz que por ti passou
Pareceu-te farsante?
Ou acordou no espírito?
No murmúrio da ribeira cintilante?
No frio do orvalho gotejante?
Respingou o Espantalho:
- Quer encenar ainda a farsa
Acordou na carne fantástica
Quer montar o palco
Do espelho que o ego abraça
Contraiu os olhos à luz
Do sol que ofuscou a garça
Bafejou o Adamastor:
-Verá o monstro trovão rugir,
Asas imensas aflorando o ar
Bafo fatal o incendiará
Fardo queimado, para o vento levar
Ao seu destino deixa-lo ir
- Minha palha pode o monstro redimir
Não temo nem fogo nem perigo
Apenas pelos pardais estremeço
Que se lhes vá o protegido abrigo
-Não receies, Espantalho querido
Que raio algum te atingirá
És testemunha do trigo
Colheita sem ti não haverá
Dispersou o Adamastor
Na noite estrelada
E a brisa suspirou
No dançar da seara:
- Apenas o fardo morre
A vida é um portal
Julga-se mais do que a sombra
Batom, pó e rímel
Não sabe onde fica
A sua terra natal.