Sim, eu vi o monstro
Acercar-se à casa
Mirando p’la janela
Na noite abandonada
Vi colossais os seus olhos
Do tamanho de duas portas
Espiando minha alma incrédula
Do vazio do seu negrume
Bastaria abrir a garganta
Para tudo absorver, o difamado
Apófis nos seus olhos
Tudo em negro teria devorado
E havia uma criança alienada
Num grave pranto desalmada
Como quem adivinha a besta
Da casa aproximada
Ai os gritos inumanos !
De quem não tem escolha
A pobre criança mercê
Das garras avizinhadas
Nem os pais aflitos
Nem os anjos benditos
O choro esganiçado estancaram
Na presença do abominável
Havia pergunta sórdida
No fundo dos dois poços
Olhos na escuridão mórbida
Profundos, negros portais
É por isto que ficas ?
Por estes que morres ?
Oh verme injurioso !
Pela carne que te distrais?
Sim, vi o monstro mirando o berço!
Cercado pelo bafo frio da noite sombria
E nas esferas cavadas da besta
Não mais consegui demorar-me
Era abominável chantagem vil
O penetrante olhar covil
Só o demónio dar-te-ia o fardo
De escolher entre aqueles que amas
Tudo absorviam as negras urbes
Nada deste mundo ali se reflectia
No imenso hediondo desfiladeiro
Apenas ténue luz persistia