3.12.2008

O Rapaz que dormia na Sombra

Na sombra do sobreiro
Viu o Rapaz ao acordar
farrapos e palha inteiro
o Espantalho a chegar

Porque permaneces,
querido Espantalho,
no jugo do sol e do vento
sob o frio do orvalho?

Porque teimas em ficar
Assim de braços no ar
estado tão sofrido
corpo de palha vivido?

Fico aqui apenas
pela simples razão
de amar estes pardais
que aqui estão

O cárcere do amor
dita o meu destino
impregna-me sabor
neste lugar existido

Por isso, não temo nem peso
por aqueles que vão,
os amigos que partem
para outra vida ou mundo

Porque, na verdade
não temo o lugar
para onde vão,
na verdade estando

Aguardo apenas o momento
de os acompanhar,
espero apenas pelo tempo
de ver os pardais esvoaçar

3.10.2008

Onda no Silêncio

São braços, são pernas
Peitos e crinas de corcéis
Onda gigante distendida
Frente à rocha pavorosa
Atira-se destituída, rebenta
Profusão alvoroça

Trovoou o gongo cabal
No silencio do templo
O átomo primeval
Para saber de onde veio
Ilustrou que o tempo
Era apenas vibração
Emanada do vazio
Explodindo a criação

3.09.2008

Hoje negou o seu coração
Meteu as chaves no carro
Enfiou-se num gavetão
Para o trabalho escravo!

Hoje não ouviu as preces
Da natural palpitação
Embrenhou-se nas messes
De uma caída civilização

Buzinaram-se sem conta
Subjugaram-se ao stress
Gritaram sem desponta
Meninos da catequese

Cheirou o pó do betão
Escape de almas submetidas
A uma vida de lassidão
De alegrias desvanecidas

Hoje negou o seu coração
Acordaram-no as olheiras
De sonho sonhado em vão
Sem justas parteiras

Hoje não ouviu as preces
De um sonho calado
Hoje o homem levantou-se
Olvidando o combinado

De que são suas olheiras feitas?
De dormir acordado
Ou de viver a dormir
São pesadas as pálpebras
Do corpo que se arrasta
Faz dos olhos uma tumba

Bebida à pressa a cafeína
Depois da bucha insonsa
Engolida a mebocaína
Afastando a doença pronta

Concentra-se no salário
Da luz sente desdém
E quando o dia se apaga
Não repara que a noite vem

A estrela deixou pousada
O Amplo fogo no céu
A Aureola avermelhada
Num grande sinal esvaneceu

Cinzas nocturnas caídas na terra
Sobre os vales luzes ateadas
Pl'o homem inconformado
Imerso na treva serrada
Quis fazer da noite outro dia

3.02.2008