3.09.2008

Hoje negou o seu coração
Meteu as chaves no carro
Enfiou-se num gavetão
Para o trabalho escravo!

Hoje não ouviu as preces
Da natural palpitação
Embrenhou-se nas messes
De uma caída civilização

Buzinaram-se sem conta
Subjugaram-se ao stress
Gritaram sem desponta
Meninos da catequese

Cheirou o pó do betão
Escape de almas submetidas
A uma vida de lassidão
De alegrias desvanecidas

Hoje negou o seu coração
Acordaram-no as olheiras
De sonho sonhado em vão
Sem justas parteiras

Hoje não ouviu as preces
De um sonho calado
Hoje o homem levantou-se
Olvidando o combinado

De que são suas olheiras feitas?
De dormir acordado
Ou de viver a dormir
São pesadas as pálpebras
Do corpo que se arrasta
Faz dos olhos uma tumba

Bebida à pressa a cafeína
Depois da bucha insonsa
Engolida a mebocaína
Afastando a doença pronta

Concentra-se no salário
Da luz sente desdém
E quando o dia se apaga
Não repara que a noite vem

A estrela deixou pousada
O Amplo fogo no céu
A Aureola avermelhada
Num grande sinal esvaneceu

Cinzas nocturnas caídas na terra
Sobre os vales luzes ateadas
Pl'o homem inconformado
Imerso na treva serrada
Quis fazer da noite outro dia