1.18.2009

mesmo no escuro do lago nocturno
oiço o brilho na água
do som das estrelas no céu

mesmo de cego coberto persiste a fé
da vida na água de outras esferas

entes do espaço para aqui vieram
de muitas galáxias procederam

espelhada na água a gravidade
entre o tudo e o nada

reside a consciência aqui
ou habita a anti-matéria?

mesmo no escuro persiste
um brilho mudo

Meridiano

Não o aflige o exército
Já deu tudo ao seu irmão
Reuniu uma trupe de guerreiros da luz
Que faz estremecer os celestes
Tem um exército do seu lado
De honrosos soldados
Capazes de suportar a cruz
Aqui e além fronteiras

Não o atormenta o exército
Tem um irmão do seu lado
Com uma rosa cruzada no peito
Foi da espada do rei que aqui ficou
Foi a ibéria que se consagrou
A mulher rouba ao homem para dar vida, fermenta o desejo na qual a semente é germinada, colhe-o como se fosse da má vida e ainda pretende passar por casta. O homem goza a mulher prostrada, dá a planta semeada, é terra lavrada da mulher sagrada.
Pois a mulher é fera que mata a cria vizinha para dar vida de si, ferida aberta de homens nascidos, à morte lançados, às garras de outras feras. Portal celestial na qual a luz é semeada. A cruz plantada.

Não chores mulher, não vais morrer, acabas de dar à luz! Que sempre que fazes um homem chorar, há mais um ponto no universo que reluz.

1.11.2009

O Galinheiro

Quando deixámos de louvar a carne que matamos para comer, descemos abaixo de animal. Matamos os filhos de deus em vão.
Na antropogénese demiúrgica esconde-se um canibalismo atroz. E mesmo as plantas ou árvores, o homem julga que tenham vindo aqui para o servir.
O leão honra a presa caçada. O humano é galinha amestrada no cimo do seu poleiro, julgando livre o pescoço da faca.

1.08.2009

Ma Donna

Olhei para ti no escuro
Olhei para ti no claro
Passei a minha vida
A olhar este quadro

Olhei nas estrelas desertas
Nos lagos turvos
Nas mulheres incertas
O rosto de veludo

De uma mulher que tinha
Nas caras todas as caras
De quem sou desde que nasci
Até ao dia que descobri
Chegar a velho mereci

O pintor era tão egoísta
Que pintou o seu rosto
De infância loira
A velho branco panteísta

Na candidez dela
Estavam caras minhas
Numa simples tela
As nossas vinhas

Como pôde alguém
Condensar num quadro
Tão pequena obra
Tão completa?

Como pôde tal génio
Esconder o futuro ali
Em madeira o passado
O tempo mistério?

São muitos os rostos da deusa
No quadro do mestre

1.07.2009

Ribeira D’Ilhas

Um tesouro escondido
E Ali à esquerda
Ali Baba a vigiar
Uma salinidade
De tanta pedra sobre o mar

Um túnel direito
Sobre o céu a dançar
Digno de o apanhar foi
Meu irmão das alturas

Que em terra este lugar
É um lugar escondido
Onde tu a surfar
Para sempre perduras

Por ali existe a pairar
Um largo sonho a voar
De um homem de terra abruta
Que se abriu para o mar

Um rio que abriu ilhas
Eternas, escondidas

1.05.2009

vive sempre perto do mar
mesmo quando para o deserto te puxarem

vive sempre perto do abismo
para onde as veias da terra te escorrem
e a luz em espectro
a vida em água cria

o sangue que percorre
aqui uma batida
outra acolá
num ciclo elementar

vive Monstro
junto ao mar
para a tua costa
atormentar

1.04.2009

hoje é dia santo
amanha pecamos

hoje descansamos
amanhã trabalhamos

hoje é dia de família
amanhã negamo-la

hoje é dia de paz
amanha é a guerra

hoje é Domingo
amanhã não sei

segundo o que uns dizem
é o inferno

hoje está murcho o que queres
amanhã cruz erecta

hoje teu é o desejo
amanhã de Elektra