Olhei para ti no escuro
Olhei para ti no claro
Passei a minha vida
A olhar este quadro
Olhei nas estrelas desertas
Nos lagos turvos
Nas mulheres incertas
O rosto de veludo
De uma mulher que tinha
Nas caras todas as caras
De quem sou desde que nasci
Até ao dia que descobri
Chegar a velho mereci
O pintor era tão egoísta
Que pintou o seu rosto
De infância loira
A velho branco panteísta
Na candidez dela
Estavam caras minhas
Numa simples tela
As nossas vinhas
Como pôde alguém
Condensar num quadro
Tão pequena obra
Tão completa?
Como pôde tal génio
Esconder o futuro ali
Em madeira o passado
O tempo mistério?
São muitos os rostos da deusa
No quadro do mestre