Nem preto nem branco
Xadrez mestiço
Tudo é vasto manto
De reis caídos
Joga-se o pranto
De peões submissos
Vivem no quadradinho
Estimando-o bem
Até que a mão do emprego
Os atire para além
Não será pela torre
Nem pelo arcebispo
Que será derrotado
Mas pela ideia deificada
Da mente obediente
Nem o veloz cavalo
O salvará da jazida
Do cão que foi
Na batalha vencida
Não queiras realizar
Para além do preto e do branco
Qualquer vasto campo
Sobre o tabuleiro a planar
Não queiras ser
Como a rainha maldita
A única na terra
Que pode morrer e voltar
Reza aos céus consentido
Para que venha a tua vez
Para que marches vanguarda
Em destemida altivez
O Adamastor, o espantalho, o rapaz. O guerreiro, a planície, os pardais, as gaivotas e os vendavais, entre outros arquétipos ancestrais. O sangue que escorre dos punhos ou a paz que se leva aos outros. A liberdade, essa, não sei se a atingi nem ninguém. Mais um ideal dos homens para conversarem à luz da fogueira. Apenas mais um dos que comem na mesa do sagrado e do profano.AM
2.27.2008
2.26.2008
Adamastor
Sim, eu vi o monstro
Acercar-se à casa
Mirando p’la janela
Na noite abandonada
Vi colossais os seus olhos
Do tamanho de duas portas
Espiando minha alma incrédula
Do vazio do seu negrume
Bastaria abrir a garganta
Para tudo absorver, o difamado
Apófis nos seus olhos
Tudo em negro teria devorado
E havia uma criança alienada
Num grave pranto desalmada
Como quem adivinha a besta
Da casa aproximada
Ai os gritos inumanos !
De quem não tem escolha
A pobre criança mercê
Das garras avizinhadas
Nem os pais aflitos
Nem os anjos benditos
O choro esganiçado estancaram
Na presença do abominável
Havia pergunta sórdida
No fundo dos dois poços
Olhos na escuridão mórbida
Profundos, negros portais
É por isto que ficas ?
Por estes que morres ?
Oh verme injurioso !
Pela carne que te distrais?
Sim, vi o monstro mirando o berço!
Cercado pelo bafo frio da noite sombria
E nas esferas cavadas da besta
Não mais consegui demorar-me
Era abominável chantagem vil
O penetrante olhar covil
Só o demónio dar-te-ia o fardo
De escolher entre aqueles que amas
Tudo absorviam as negras urbes
Nada deste mundo ali se reflectia
No imenso hediondo desfiladeiro
Apenas ténue luz persistia
Acercar-se à casa
Mirando p’la janela
Na noite abandonada
Vi colossais os seus olhos
Do tamanho de duas portas
Espiando minha alma incrédula
Do vazio do seu negrume
Bastaria abrir a garganta
Para tudo absorver, o difamado
Apófis nos seus olhos
Tudo em negro teria devorado
E havia uma criança alienada
Num grave pranto desalmada
Como quem adivinha a besta
Da casa aproximada
Ai os gritos inumanos !
De quem não tem escolha
A pobre criança mercê
Das garras avizinhadas
Nem os pais aflitos
Nem os anjos benditos
O choro esganiçado estancaram
Na presença do abominável
Havia pergunta sórdida
No fundo dos dois poços
Olhos na escuridão mórbida
Profundos, negros portais
É por isto que ficas ?
Por estes que morres ?
Oh verme injurioso !
Pela carne que te distrais?
Sim, vi o monstro mirando o berço!
Cercado pelo bafo frio da noite sombria
E nas esferas cavadas da besta
Não mais consegui demorar-me
Era abominável chantagem vil
O penetrante olhar covil
Só o demónio dar-te-ia o fardo
De escolher entre aqueles que amas
Tudo absorviam as negras urbes
Nada deste mundo ali se reflectia
No imenso hediondo desfiladeiro
Apenas ténue luz persistia
2.25.2008
O meu Irmão
Queres ser meu irmão
Dar as mãos no caminho
Saltarmos juntos as cercas
Sem medo do advindo ?
Queres aceitar este farnel
Que preparei com cuidado
Dares um pouco do teu mel
Tão denso e corado?
Queres pular esses muros
Golpear trilhos p’la selva
Queres ouvir o som puro
Risos na montanha bela?
Queres defender-me a honra
Dar o sangue como paga
E passar uma esponja
No sangue da espada?
Acender uma fogueira
Sentar na noite estrelada
Abrir os livros antigos
Contar a história encantada?
Queres ser meu irmão
Travar esta longa batalha
Estender com força a mão
Preencher a minha sem falha?
Um braço hoje aqui
Uma âncora amanha acolá
A um pacto de sangue assim
Alto exército acudirá
Dar as mãos no caminho
Saltarmos juntos as cercas
Sem medo do advindo ?
Queres aceitar este farnel
Que preparei com cuidado
Dares um pouco do teu mel
Tão denso e corado?
Queres pular esses muros
Golpear trilhos p’la selva
Queres ouvir o som puro
Risos na montanha bela?
Queres defender-me a honra
Dar o sangue como paga
E passar uma esponja
No sangue da espada?
Acender uma fogueira
Sentar na noite estrelada
Abrir os livros antigos
Contar a história encantada?
Queres ser meu irmão
Travar esta longa batalha
Estender com força a mão
Preencher a minha sem falha?
Um braço hoje aqui
Uma âncora amanha acolá
A um pacto de sangue assim
Alto exército acudirá
2.22.2008
Fecharam o rapaz
cadeia, cercas, ferro
aprisionaram a luz
a vil cadeados perros
Almas enubladas sem amor
narizes eruditos empinados
olhos empertigados ao seu redor
arreganhados dentes, disfarçados
Livrem-no deste ardor
o colo materno das marés!
salvem-no do pranto esfomeado
de ver cruzes alheias no peito
como sua mísera dor
Eis que por entre grades
mareia salubre a maresia
portando o brilho de jade
calmante eternidade...
Que fale o Adamastor !
- Porque não és os olhos
Vermelhos na noite ardilosa
riso eterno da ovelha
que se lamenta pesarosa
de penosa perene ordenha?
- Porque não és Arlequim
Enuble a mente vã
com um pequeno gesto laço
sobre alma desencoberta
a caricatura sã?
- Porque não te limitas
a perder o juízo
dízimo ardiloso
dos media da mente?
- Porque sofres no juízo
perseguido, por julgar sentido
veemente crer poder
evitar tudo perder?
- Porque não és,
pobre rapaz,
tirano imperioso
soberano Adamastor?
cadeia, cercas, ferro
aprisionaram a luz
a vil cadeados perros
Almas enubladas sem amor
narizes eruditos empinados
olhos empertigados ao seu redor
arreganhados dentes, disfarçados
Livrem-no deste ardor
o colo materno das marés!
salvem-no do pranto esfomeado
de ver cruzes alheias no peito
como sua mísera dor
Eis que por entre grades
mareia salubre a maresia
portando o brilho de jade
calmante eternidade...
Que fale o Adamastor !
- Porque não és os olhos
Vermelhos na noite ardilosa
riso eterno da ovelha
que se lamenta pesarosa
de penosa perene ordenha?
- Porque não és Arlequim
Enuble a mente vã
com um pequeno gesto laço
sobre alma desencoberta
a caricatura sã?
- Porque não te limitas
a perder o juízo
dízimo ardiloso
dos media da mente?
- Porque sofres no juízo
perseguido, por julgar sentido
veemente crer poder
evitar tudo perder?
- Porque não és,
pobre rapaz,
tirano imperioso
soberano Adamastor?
2.20.2008
O Príncipe
Eu não quero pousar
Dêem-me o fogo
Dêem-me o ar
Aladin sem assentar
Em tapete voador
Voo eterno sobre o mar
Em prancha mágica
Sobre o vasto altar
O meu pai é abastado
Deixou-me tesouros e castelos
Templos demasiado belos
Por legiões cobiçados
Mas de todos eu escolhi
Logo o fogo e o ar
Por serem, entre aqueles
Os mais estóicos de cavalgar
Peito erguido meu Príncipe
Até à morte
Leva o fogo
Leva o vento
Sulca bem os pés na terra
Não te desvies nunca
Pela inveja da corte
Vai no caminho da água
Deixa a cidade para trás
Ruma de olhos na fonte
Passando pelas coisas
Todas boas e todas más
Pela morte estás definido
Sabes que nela viverás
Mil e uma noites mor
Nunca acabam, nunca não,
Guardam o infinito no meio
E a unidade ao seu redor
Dêem-me o fogo
Dêem-me o ar
Aladin sem assentar
Em tapete voador
Voo eterno sobre o mar
Em prancha mágica
Sobre o vasto altar
O meu pai é abastado
Deixou-me tesouros e castelos
Templos demasiado belos
Por legiões cobiçados
Mas de todos eu escolhi
Logo o fogo e o ar
Por serem, entre aqueles
Os mais estóicos de cavalgar
Peito erguido meu Príncipe
Até à morte
Leva o fogo
Leva o vento
Sulca bem os pés na terra
Não te desvies nunca
Pela inveja da corte
Vai no caminho da água
Deixa a cidade para trás
Ruma de olhos na fonte
Passando pelas coisas
Todas boas e todas más
Pela morte estás definido
Sabes que nela viverás
Mil e uma noites mor
Nunca acabam, nunca não,
Guardam o infinito no meio
E a unidade ao seu redor
2.18.2008
a sombra escura assombrou
a mente do medo mentiu
em cansaço a carne se tornou
no sono que a alma pediu
era apenas um sonho
uma vida sonhada
de alguém que sentia
voava e caminhava
quando o sonho acabou
no acto de perecer
nenhum medo se aportou
do sonho de esmorecer
pois não há mal em morrer
numa vida sonhada
de ver a beleza
que a mente enganava
acordado ao saber-se sonhado
no sonho onde vivia o ser
a mente do medo mentiu
em cansaço a carne se tornou
no sono que a alma pediu
era apenas um sonho
uma vida sonhada
de alguém que sentia
voava e caminhava
quando o sonho acabou
no acto de perecer
nenhum medo se aportou
do sonho de esmorecer
pois não há mal em morrer
numa vida sonhada
de ver a beleza
que a mente enganava
acordado ao saber-se sonhado
no sonho onde vivia o ser
Theta Geminorum
Cada um dá uma face
Gémea da face que recebe
E a cada um que recebe
Aprende-se uma face que dá
Gémea da face que recebe
E a cada um que recebe
Aprende-se uma face que dá
A Harpa
Houve ali, breves segundos
Em que o homem visitou
Um jardim perdido
Um pátio de concórdia
Onde fizeram infinito
Os braços entrelaçados
Num oito desmedido
Era um jardim de música
Onde os animais escutavam
A vibração simpática
Das nove cordas de uma harpa
Vinda da arte antiga
De um tempo perdido,
Por breves segundos
Em que o homem visitou
Um jardim perdido
Um pátio de concórdia
Onde fizeram infinito
Os braços entrelaçados
Num oito desmedido
Era um jardim de música
Onde os animais escutavam
A vibração simpática
Das nove cordas de uma harpa
Vinda da arte antiga
De um tempo perdido,
Por breves segundos
Pastor ou a ovelha
Compositor ou intérprete
Arquitecto ou construtor
Mestre ou aluno
Justiça ou justiceiro
Princípio ou fim
Apenas interessa viver
Aquilo que Ele quer que seja
Como o infante
Que quando brinca de avião,
Voa!
Como o Intérprete que brinca de compositor
O Construtor que brinca de arquitecto
Como o Aluno que faz de mestre
O Justiceiro que faz justiça
O Fim que compõe o princípio
A Criança de velha infância
Compositor ou intérprete
Arquitecto ou construtor
Mestre ou aluno
Justiça ou justiceiro
Princípio ou fim
Apenas interessa viver
Aquilo que Ele quer que seja
Como o infante
Que quando brinca de avião,
Voa!
Como o Intérprete que brinca de compositor
O Construtor que brinca de arquitecto
Como o Aluno que faz de mestre
O Justiceiro que faz justiça
O Fim que compõe o princípio
A Criança de velha infância
2.12.2008
O Carrossel
A vida é um carrossel
Desde que a roda não pare
Vamos felizes e contentes
Sobre carruagens cadentes
Unicórnios videntes
Não há nada fora da roda
Apenas a negra mão
Deixa que gire
Deixa que gire
Criança no seu coração
Desde que a roda não pare
Vamos felizes e contentes
Sobre carruagens cadentes
Unicórnios videntes
Não há nada fora da roda
Apenas a negra mão
Deixa que gire
Deixa que gire
Criança no seu coração
O Ditame
É um vórtice
Só a exalação causa vibração
A inspiração é só causa maior
Daí que se deva dar ou falar quando se expira
Inspirar é para receber
.
Só a exalação causa vibração
A inspiração é só causa maior
Daí que se deva dar ou falar quando se expira
Inspirar é para receber
.
2.10.2008
Poção Mágica
Foi levada pelo vento a vontade
esquecida das pulsações antigas
foi levada para além da saudade
as dores do coração esmorecidas
não bate mais aqui nesta casa
a cruz, o fardo, a chaga
Forçou-se noutra dimensão
embarcou em nave espacial
foi ver na constelação uma estrela
brilhando a derradeira escuridão
Como a luz de uma fogueira
na floresta guiando o viajante
de uma bruxa à sua lareira
aguardando o foragido pedante
Bebe o cálice da paz sombrio
fumegado no caldeirão ardente
deita-te na rede suspenso
perdido do espaço proeminente
esquecida das pulsações antigas
foi levada para além da saudade
as dores do coração esmorecidas
não bate mais aqui nesta casa
a cruz, o fardo, a chaga
Forçou-se noutra dimensão
embarcou em nave espacial
foi ver na constelação uma estrela
brilhando a derradeira escuridão
Como a luz de uma fogueira
na floresta guiando o viajante
de uma bruxa à sua lareira
aguardando o foragido pedante
Bebe o cálice da paz sombrio
fumegado no caldeirão ardente
deita-te na rede suspenso
perdido do espaço proeminente
2.08.2008
Lento
Lentidão
Tudo vagaroso
Como quem está só
Somente só
Perdido vazio
Como o som a que brilha
A pedra da calçada
A arvore que murmura
Só a mente está só
Tudo o resto subsiste
Somente só não permanece
Quase-não permanece
Quase que o tempo pára
Ah! Num minuto a eternidade!
E de repente….
Tudo o que está só se conjuga
É tudo movimento
Lento
Vagaroso
Lentidão
Tudo vagaroso
Como quem está só
Somente só
Perdido vazio
Como o som a que brilha
A pedra da calçada
A arvore que murmura
Só a mente está só
Tudo o resto subsiste
Somente só não permanece
Quase-não permanece
Quase que o tempo pára
Ah! Num minuto a eternidade!
E de repente….
Tudo o que está só se conjuga
É tudo movimento
Lento
Vagaroso
2.06.2008
não haveria eu de gostar deste mar divino
da água escorrida na face da terra
por esse pranto mineral infinito
de vales enrugados e cavados
por lágrimas caídas do céu feitas
de ser, apenas
amado e temido
não haveria eu de gostar deste sal
de um vulgo de cinzas ao mar jogado
de tantos prantos e séculos badalado
não haveria eu de gostar de ser
amado e temido
pó, na água caído
de ser, apenas
Portugal
da água escorrida na face da terra
por esse pranto mineral infinito
de vales enrugados e cavados
por lágrimas caídas do céu feitas
de ser, apenas
amado e temido
não haveria eu de gostar deste sal
de um vulgo de cinzas ao mar jogado
de tantos prantos e séculos badalado
não haveria eu de gostar de ser
amado e temido
pó, na água caído
de ser, apenas
Portugal
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