8.31.2007

Sagres

Essa falésia à beira mar plantada
Onde o azul se perde no infinito
Conta que a terra acaba onde começa o mar.

E quem deixa esta vida
Em barca incerta, abraçando o mar
Novas terras encontrará
Sem igual nem par.

O Génio

Não vez que a Lâmpada de Aladino
Onde esfregas as mãos
Pelos três desejos sofridos
É o teu coração?

Tu és génio cujos dons aspiras revelar.

Mas a lâmpada só alumia
O mendigo andrajoso

Pomba Branca

E a vida continuava,
Naquela praça ferida pelo tempo
Pombas acercadas junto a uma velhota
Bengala na mão e um saco de papel na outra,
Curvada pela idade.

Restinhos de pão duro, do almoço dos dias anteriores
Xaile cinzento-claro cobria-lhe a cabeça
Esforçou-se por multiplicar milagrosamente
Os bocados em bocadinhos menores,
Para que a nenhuma ave faltasse o ânimo de voar.

E como que tirada de um quadro,
Foi sobrevoada por uma névoa de asas,
Na qual se perdeu e foi achada.
Sorrindo na graça de ser agraciada
Pela coreografia que desenhava.

Quem melhor olhou
Viu, que aquela velhota entre elas voava
E nas costas curvadas,
Escondia umas asas mais brancas
Que a pedra branca da calçada.


Foi aí, que sem o saber
Chegou a velha do xaile ao meu ouvido
E cândida sussurrou:
“ – Não me poderás agarrar,
Sou livre como o amor”.

E parece que a vi afastar-se, prazenteiramente,
Deixando para trás pombas extasiadas
Multidões esquecidas da fome.

Abriu as asas num estrondo e fugiu,
Para longe do olhar.

Os seus cabelos eram mais claros
Que as penas brancas da pomba a voar.

8.30.2007

O penhasco era alto. Falésia rochosa que contempla o mar abrupto. E mesmo assim, chegado à beira do abismo, o rapaz perguntou:

- Qual é o segredo da felicidade?

- Queres mesmo saber o segredo da felicidade? – Entoou o Adamastor em voz de trovão que ameaçou ruir a própria vertigem.

- Quero – respondeu humilde, o pobre rapaz à beira do precipício plantado, pequeno e enxuto.

- Salta! – Trovejaram as vagas gigantes nos penedos lá em baixo – Salta! – Erguendo-se majestosas de terror.

Decerto morreria só da queda, meditou o rapaz, avistando o oceano escuro de revolta, lá bem em baixo. Decerto o mar quebraria a sua espinha frágil contra a falésia, nas correntes tempestuosas.

- SALTA! – Vociferou o Adamastor com ar de desdém e regozijo – Salta se fores capaz!

E foi aí que o rapaz sentiu uma mão de gigante no ombro e sorriu. Largou gargalhada infinita que arrebatou os ventos longínquos e fez estremecer os sete mares. E o vibrar do estrondo da sua comédia foi tão grande, que não mais ouviu o Adamastor.

Foi aí que os seus olhos perguntaram ao vazio sereno que se estende para além do mar – Quem és tu Adamastor?

Este é o meu cantinho
Onde pouso os braços de Guerreiro
E contemplo aquilo que já fui.

Os seus olhos eram da cor do fundo do mar.
As reticências não fazem uma linha recta?
Estamos todos ligados por linhas tortas,
soltas no espaço como pautas melodiosas.
E assim escrevemos certo o nosso destino.
Porque na carne se desencontra o espírito,
Que só assim vive verdadeiramente.

8.28.2007

Nasceste da lavra e para a terra voltarás!
Recordar é apenas enganar a morte, dos momentos que inscreveste na luz das estrelas.
Só o louco implode em profusão
Tudo o que pedes acima
Terás de dar abaixo
És apenas ligação
Não há dar nem receber
Não tentes ser o fim das coisas
Ou elas determinarão o teu fim.

8.22.2007

Deixai-os bater à porta,
Nas noites de ventania tenebrosa
Que eu os ouvirei
Como às batidas no meu coração.

E apesar do medo,
Não entrarão na minha casa
Porque foi construída com as mãos.

Tudo o que eles poderão destruir
Já está destruído.

Não cerrarás os punhos
Virarás as palmas das mãos para o céu.

E o vento não será mais.

8.20.2007

Deusa do Gelo

Não é o vento que abana os seus cabelos
são os teus cabelos que apaixonam o vento.

Não são as ondas que existem no teu corpo
seu corpo é a barca que as navega

Não, não é a luz que se reflecte nos seus olhos
seus olhos que são a prisão da luz

Óh Ninfa do Gelo, não vês que tens uma estrela em ti?

8.17.2007

Cantemos hoje esta vida que amanha já não haverá outra igual. Não queiras fintar o tempo, ele é maior que o teu deus


.

Eclipse

- É engraçado, eles correm para o ver - pronunciou o rapaz no meio do mar calmo.

- Pois, eu não te tinha dito, como é belo o sol atrás da lua? - Retorquiu Adamastor - Julgas-te mais que a sombra?


Aí o rapaz pensou na espada do medo e respondeu aflito - Não eu não o quero ver! - E fugiu a nado daquele tormento.
Não percas a poesia no sorriso da criança.
Mas dá-lhe um raspanete se não a suportares.

Porque ela vai tentar-te a encontrares o caminho da perdição.
O Cabo da Boa Esperança, protegido pelo Adamastor.
Afastem-se da poesia, porque ela leva à loucura.

Mas loucos somos nós todos, não tenhas medo da poesia.

E assim, com a maça numa mão e a tentação na outra, está indicado o caminho.
O eterno retorno = a buraco negro ?




....estranha pergunta
Uma dor torna-se mais fácil de suportar se partilhada por dois.
Mestre é quem partilha as dores dos outros.
O que come dor ao pequeno almoço


.
A dualidade ajuda-nos a viver
E a não ter que suportar a roda-viva do fogo.

8.16.2007

Todos gravamos a mensagem na eternidade, de alguma forma.
Nem que só tenhamos dado a esperança a uma mãe de que seríamos vida.

Pedra por Esculpir

Então tu escolhes o medo! – Perguntou o Adamastor.

Sim escolho o medo, o medo de a perder, o medo da morte – declamou o rapaz naufragado.

Mas por mais que lhe respondesse, o Adamastor continuava a tenta-lo, e dizia-lhe que por detrás das ondas escondiam-se a paz, a consciência, que poderia ver outros planetas e caminhar pelo mar. Que o medo de transbordar era ridículo contra as maravilhas que ele podia ter – então tu escolhes a dor! - voraciferavam as vagas a rebentar na rocha.

Sim, escolho o medo, quero ficar aqui e cumprir o meu destino! – gritou o rapaz com convicção que desconhecia.
E dizendo isto esqueceu-se do vento, e não viu mais o gigante temeroso.

O mar acalmou.
Isto não é poesia, o que escrevo

Poesia é a lágrima que canta
O pássaro que encanta
A mãe e a filha
A dor que amansa
Os olhos nas nuvens
A borboleta que dança,
mesmo na flor pousada

Isto é apenas um retrato da poesia.
O conhecimento é a memória dos gigantes que viveram antes de nós.
Prenderam-no nas masmorras a sete chaves.
O Humor foi a última graça divina
Aquela que aprisionou o Diabo no labirinto do medo.
O medo supremo impede-nos de morrer
Pois é do amor à vida que a morte foge.
Mas ao fado da música todos dançam alegres
a ceifeira no escuro e os gigantes de pedra ao sol.
Sagres foi onde a caravela chegou ao palácio de luz
e o homem descobriu o seu fado.
Foi ele que escolheu cantar a dor.
Palhaço é o Mestre
Que descobriu a Comédia Divina
perdemo-nos no caminho
até a memória nos dizer que já ali estivemos
só então é que sentimos
brisa na cara
a soprar
Muda o teu número de telefone
Para saberes quando o Diabo te liga
E quando Ele te ligar não atendas!
Mas procura antes saber porque te liga.
Todos nós atendemos o telefone uma vez na vida.
Sobre a torre que o teu filho construiu
Erguerás uma torre maior
E o último andar lhe irás doar
Para que possas viver mais alto também


.

8.15.2007

A ciência não pode provar que o super-homem existe, mas pode calcular quantas bandas desenhadas saíram dele.
É por isso que a ciência é a arma do Diabo ao serviço de Deus.
Saíram dele.

8.14.2007

Desconfia de Deus,
pois ele pode ser o Diabo escondido

E não temas o Diabo,
pois ele pode indicar-te o caminho de Deus.

8.10.2007

Não reverencio o louco porque sei que posso ser como ele.
Não estimo o corajoso pois sei que é vã a glória,
Nem respeito o intelectual porque dessacralizou a resposta.

Considero o mendigo porque sabe quem eu sou
Só não vê quem não quer
Todos suplicam por algo

Estenderão todos as mãos em reverência

No fim.

Páginas abertas ao vento
Não podes voltar com a palavra atrás

Assim que a folha é rasgada
Ela voa pelos caminhos da verdade
Onde outro livro nascerá

Não podemos ler todos do mesmo livro
Todos os livros têm uma página original

.

8.01.2007


porque para sempre és um homem só


naquele jardim perdido onde o teu coração virou pedra



quando olhaste para os olhos da medusa


e no baloiçar prefeito das suas serpentes ficaste preso


nenhuma mulher te fará sofrer mais